[Do lat. imp. improprietate.]

... Substantivo feminino ... 1. Qualidade de impróprio ... 2. Inconveniência, oportunidade ... 3. Incoerência, absurdo ... 4. Deslize, lapso; incorreção: Sua linguagem se ressente de muitas impropriedades

domingo, 22 de novembro de 2009

Retrato do artista revolucionário



Sentou em sua cadeira aconchegante.
Começou a esboçar sua idéia brilhante.
Traçou metas.
Escreveu textos.
Recolheu músicas.
Imaginou cenários.
Escolheu figurinos.
Encontrou citações.
Tudo muito de acordo com o que estava na moda.
Seria transgressor.
Seria inovador.
Iria revolucionar as artes.
Ninguém teria coragem de contestá-lo.
Seria ousado ao tocar em assuntos que ninguém teria coragem.
Seria corajoso usando poucas palavras.
Ou alguma outra língua que somente poucos pudessem ter acesso.
Todo o resto seria fácil.
Não ousar dessa forma seria medíocre.
Todos os outros que vieram antes dele eram medíocres.
Não assistiu aos seus espetáculos, já sabia o que viria.
O mundo, de uma hora para outra, tinha se tornado tão deja-vú.
Só ele era capaz de discutir o homem contemporâneo.
Só ele seria capaz de nos mostrar o caminho.
Era sua obrigação nos mostrar o caminho.
Entrou em cartaz em um teatro super íntimo.
Fazia sessões para poucos.
Quanto menos, melhor.
Terminou a temporada com muitas críticas positivas.
Ninguém lembrou do espetáculo depois de duas semanas.
Viveu feliz, com seus recortes de jornais.
Dormindo sob a glória municipal.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Merda!







Será que eu ainda vou ficar muito tempo aqui? - Era o que se perguntava o escritor, sentado no vaso sanitário, sofrendo de cólica intestinal. Olhando para baixo, via as dobras de sua barriga flácida. Definitivamente estava gordo. Precisava fazer alguma coisa urgente. Caminhar. Correr. Exercitar-se de alguma maneira. Chega de tanta comida e leitura. E escrever. E escrever... era uma das poucas coisas que ainda lhe davam prazer. Algum prazer.

Seu estômago, definitivamente, havia declarado guerra. Alguns dias era a azia que não lhe deixava pensar. Noutros, como hoje, essa torrente sem fim que lhe prendia ao vaso sanitário. Merda de vida! - pensava. Merda... literalmente.

No meio desses pensamentos pouco artísticos, lhe ocorreu uma idéia "brilhante". Um desses insights que, com certeza, virariam uma verdadeira obra-prima. Pensou em levantar-se rapidamente e correr para o computador escrever, ou pelo menos esboçar, a idéia que tivera. Só pensou. No momento em que fez menção de tirar a bunda do vaso sanitário -literalmente - uma imensa onda de cólica lembrou-o o porquê de ainda não estar dormindo.

Começou a entrar em pânico. Ultimamente andava com um bloqueio. Mental, óbvio. Não conseguia animar-se a escrever nada que fosse. Nenhuma chispa. Nenhuma idéia. Nenhuma sensação que o motivasse a aventurar-se a escrever. Bom... pelo menos até o momento. Não podia arriscar perder a inspiração... mas também não podia arriscar sair do banheiro daquele jeito e fazer uma sujeira que depois seria responsável pela limpeza.

Alucinadamente começou a procurar papel e caneta. Talvez se anotasse alguns tópicos, pelo menos, conseguiria lembrar depois da idéia. Sim, era obrigado a reconhecer que sua memória era péssima. Não era daqueles escritores que conseguem ficar "cozinhando" um texto somente na cabeça e depois derramam tudo no papel... ou na tela... ou... ou seja, ou escreve ou perde! Simples assim... quer dizer, neste momento nem tão simples.

Agarrou-se com o rolo de papel higiênico. Não deixava de ser papel e, pelo menos, era branco. Sem nenhum tipo de desenhinho e/ou perfume. Aliás, isso era um ítem que não se discutia. Tinha verdadeira aversão aqueles papéis enfeitadinhos. Pronto! Problema resolvido... já tinha papel! Agora era só escrever e guardar a idéia brilhante.

Escrever... Escrever... Escrever... Com que caneta, porra?

Merda. Mil vezes merda!

E nova cólica chegou, para fechar a história com chave de ouro...


terça-feira, 3 de novembro de 2009

Às vezes... [2]



Deixa eu ver se entendo:

A idéia é que todos estamos neste lugar esperando por algo acontecer. Confere?
Porque eu não saberia dizer, ao certo, se é isso que me mantém aqui.
Tudo bem que eu não tenho onde ir mesmo.
Dessa forma, mesmo que nada fosse acontecer, eu não teria para onde ir.
Certas coisas vocês nunca entenderiam. Eu mesmo não entendo.
Eu mesmo não compreendo direito. Mas isso não quer dizer que elas não continuem acontecendo.
Eu vivo assim.
Ao prazer dos acontecimentos.
Ou talvez, da falta deles.
Ou talvez, ainda, dos acontecimentos com as outras pessoas.
Eles, na verdade, é que são o meu ganha-pão.

E o resto?

São apenas palavras.
Coisas que ficamos fazendo para dar a impressão de que algo está acontecendo.
Assim.
Como os outros.
Que dão a entender que a vida deles é que é animada.

Mas eu já estou aqui há um bom tempo.
Já aprendi a diferenciar o que é realmente um acontecimento daquilo que as pessoas gostariam que fosse.
Puro entretenimento.
Puro exibicionismo.
Comprar isso ou aquilo.
Largar o filho com a empregada jovem.
Criar condições para que uma tragédia aconteça.

Assim é a vida.

Assim somos nós.
Ou melhor, eles.
Eu não.
Eu aceito que nada aconteça.
Prefiro viver uma aventura real do que me enganar com milhares de tentativas.

Frustradas.

Obviamente.

Mas existem alguns momentos verdadeiros.
Quando, dentro de tanto movimento, eles são surpreendidos por algo.

Às vezes...





...

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Subida

(Três pessoas em uma escada. Um embaixo. Um no meio. Um no alto. Uma torneira aberta encharca o palco)

A: Corre, corre... Não me atrasa
B: Vai indo que eu te alcanço.
C: Era o que dizia o jornal hoje?
A: Não posso mais esperar...
B: Só tragédia... só sangue e pesadelo.
A: Não quero te deixar assim...
C: Já estou ficando habituado com essa escada.
A: Se a gente correr... as coisas... Tudo vai dar certo.
B: Como é possível?
A: Deixar tudo para trás.
C: A gente se acostuma com tudo.
B: Um dia a gente olha pra trás e vê: claro como uma fotografia. Tudo afundando... Tua vida afundando. Tua infância afundando. Teus dias.
A: E se você fugisse?
C: De novo?
B: Então corres. Na tentativa de recuperar algo que vês sendo engolido pela água.
C: De novo.
B: Sim.

A: Existem crimes que não têm conserto. Existem ações que não são passíveis de reparação. Existem torneiras que te perseguem, não importa onde você esteja. Elas pingam e afogam teu cérebro. É a água suja da maldita torneira que está escorrendo pelos teus olhos. É a maldita água suja de sangue da torneira que enche tua boca e dificulta tua respiração. Então, tu corres... Na tentativa de recuperar algo que vês sendo engolido pela água. Corre, corre... não me atrasa.
B: Era o que dizia o jornal de hoje? Vai indo que eu te alcanço.
A: Não posso mais esperar...
B: Já estou ficando habituado com essa escada. Só tragédia... só sangue e pesadelo.
A: E se você fugisse?
B: Deixar tudo para trás. Um dia a gente olha pra trás e vê: claro como uma fotografia. Tudo afundando... Tua vida afundando. Tua infância afundando. Teus dias... A gente se acostuma com tudo.
A: De novo?
B: De novo.

A: Existem crimes que não têm conserto. Existem ações que não são passíveis de reparação. Existem torneiras que te perseguem, não importa onde você esteja. Não posso mais esperar... Já estou ficando habituado com essa escada. Só tragédia... só sangue e pesadelo. E se você fugisse? Deixar tudo para trás. Um dia a gente olha pra trás e vê: claro como uma fotografia. Tudo afundando... Tua vida afundando. Tua infância afundando. Teus dias... A gente se acostuma com tudo. De novo? De novo.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Nathasha 2.0



Entrou no quarto e sentou na cama. Estava cansada. O dia não tinha sido dos melhores. Ultimamente, muitos dias disputavam o posto de não ter sido dos melhores. Mas, de qualquer forma, precisava trabalhar. Tinha um site na internet. Todos os dias, no mesmo horário, chegava em casa, ligava a cam e se masturbava para os "clientes". O pagamento era feito através de depósito bancário, previamente realizado. Algumas vezes, o trabalho envolvia mais de uma pessoa. Sessões especiais. Nunca mais do que três pessoas no mesmo quarto. Nunca encontrou quem bancasse uma festa.

Ultimamente seu trabalho andava também meio parado. Depois de 08 anos fazendo o mesmo show já tinha se mostrado para praticamente todos os usuários disponíveis. Sem contar que sempre tinha um desgraçado que gravava sua performance e a distribuia gratuitamente pela internet. Detestava pirataria. Detestava pornografia. Detestava quando os clientes também abriam a cam. Preferia masturbar-se sozinha. Com seus pensamentos.

Naquele dia felizmente, ou infelizmente, tinha somente dois clientes. Nenhum dos dois tinha pago um programa completo. Era somente entrar, tirar a roupa por uns poucos minutos, fazer algumas caras e bocas, fingir um orgasmo ruidoso e seguir adiante. Simples. Já estava habituada com o trabalho.



Ligou uma música. Ligou o computador. Abriu o programa que usava para se comunicar com os clientes. Abriu a cam. Esperou por alguns momentos para que o relógio marcasse a hora combinada. Esperou profundamente que os clientes não aparecessem. Não ficassem online. O dia não estava sendo dos melhores. Poderia passar muito bem sem ter que trabalhar nessa noite. Não fosse pelo dinheiro, ficaria bastante tempo longe daquele quarto.

Logo, um dos clientes entrou na web. Natasha... Obviamente esse não era seu nome real... Natasha começou seu show habitual. O cliente dizia, em textos praticamente impublicáveis, o que queria que ela fizesse. E ela fazia, quase que mecanicamente, seu trabalho. Suas mãos. Exploravam partes do corpo. O interior das coxas. Os quadris. Os seios. Tudo.



Os clientes pareciam se tornar cada vez mais exigentes. Ou talvez fosse ela que não já era boa o bastante para o trabalho. Quando havia começado, há oito anos, já não era uma adolescente. Hoje, então, se sentia velha e feia, embora não fosse. As frases escritas pelos clientes também já não eram as mesmas. Se antigamente eles se satisfaziam observando a sua nudez, hoje eles pareciam querer sempre mais. Mais fetiches. Mais fantasias. Mais objetos. Sempre mais.

Mas aquele dia não estava sendo dos melhores. Ela não se sentia à vontade. Isso não quer dizer que ela não fizesse tudo o que lhe pediam. Fazia. Tentava demonstrar prazer. O prazer que algum dia talvez até tenha conseguido sentir. Hoje, nem fingir ela conseguia mais. Hoje, o máximo que ela conseguia era tentar sorrir. Tentar.

Tentou. E falhou. No meio de seu trabalho insuportável ela não conseguiu conter o choro. Lágrimas rolaram pelo rosto. A princípio ela tentou disfarçar. Virar o rosto e mostrar outras partes do corpo para que os clientes não percebessem. Tentou secar as lágrimas esfregando o rosto no lençol da cama. Tentou controlar-se. Tentou ser forte. Tentou conter-se. Tentou.

Quando parou o show e foi teclar com os clientes para oferecer um outro horário para eles, percebeu que um deles já não estava mais online. Tentou começar a explicar que não estava sentindo-se bem e que prometia repor o horário, desde que não pedisse seu dinheiro de volta. Surpreendeu-se.

- Me deixa ver você chorar? Me deixa? Eu pago o dobro, se me deixar vê-la chorar enquanto se masturba. É sério! O triplo.

Ela deixou. E fez tudo o que ele pediu, enquanto chorava. Não foram algumas poucas lágrimas. Na verdade foi quase que uma catarse. E, pela primeira vez depois de muito tempo, ela não precisou fingir o orgasmo.

Logo a notícia correu pela web. Na semana seguinte ela atendeu 15 clientes. Destes, 12 queriam vê-la chorar. Na posterior foram 48. Depois, 137. Logo precisou trocar de provedor para dar conta da demanda. Foi obrigada a criar a versão "2.0" de seu site. Mais moderna. Mais de acordo com as novas tendências. Interagia com seus clientes. Tornou-se uma nova sub-celebridade. Logo, logo iremos encontrá-la no twitter, interagindo com seus seguidores.

sábado, 17 de outubro de 2009

Mais um de amor...



Eu nunca quis um amor bossa-nova. Nunca quis um amor morno, com um violãozinho simples e uma voz que me lembrasse João Gilberto. Ao mesmo tempo, eu nunca amei como um metal pesado, com uma voz cortante e fazendo muito barulho. Na verdade, se parar para pensar nem sei dizer que estilo tem o meu amor. Mas tenho uma séria desconfiança de que, em alguns momentos, ele se transforme numa daquelas músicas pop beeeeem bregas. Com muitos vocais estridentes e um sofrimento quase fake.

Mas eu prefiro amar como uma chanson francesa. Porque as canções francesas sempre oferecem um ar de mistério. Nunca se entregam diretamente. São melodiosas. São quentes, na medida certa. E são também distantes, quando necessário. São alegres, sem serem banais. São misteriosas e quase todas, românticas. Se existe uma coisa da qual os franceses parecem saber falar, é o amor. Acho que sua língua foi criada para isso. Não sei se o ritmo, se a pronúncia ou a alma.

Só que eu fui procurar uma música para esse post e eu tinha várias francesas na minha cabeça... só que nenhuma era "aquela". Nenhuma música que me lembrasse o "meu" amor. Aquele que completa hoje 01 ano de existência. Assim que eu fiquei durante toda essa semana escutando músicas de amor. E foi muito engraçado como eu fui percebendo como nós não temos "uma" música... nós conseguimos ter várias! Uma para cada período e cada "momento" do que vivemos.

Sim... na maioria das vezes são músicas muito melosas. E, sinceramente, não estou nem ligando que achem isso. EU sei o que essas músicas significaram em cada momento desses 365 dias que passei junto à quem eu amo.

Isto posto, vai aqui meu Top5 músicas que eu dedico ao meu amor, neste "primeiro" ano juntos:












... e um bônus track, que talvez seja a que melhor represente minhas "intenções" nessa história toda!

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Enquanto isso, em um mangue em Porto de Galinhas...