[Do lat. imp. improprietate.]

... Substantivo feminino ... 1. Qualidade de impróprio ... 2. Inconveniência, oportunidade ... 3. Incoerência, absurdo ... 4. Deslize, lapso; incorreção: Sua linguagem se ressente de muitas impropriedades

Quarta-feira, 26 de Março de 2008

O ilusionista...

Trilha sonora para este post:
Diamonds are Forever
by Shirley Bassey











Cortar pessoas ao meio, esse era o seu trabalho.
Fazer com que coisas desaparecem.
Fazer com que as pessoas não prestassem atenção no que realmente era importante.
E ele era bom.

Usava muito bem as mãos, as expressões, o texto, o fator surpresa. Sabia como ninguém manipular. Não mentia, nunca. Afinal, quando vamos a um show desses, já sabemos o que vamos encontrar. Ninguém é tão inocente assim. A não ser as crianças. As crianças realmente crêem. As crianças vêem o carro desaparecer, e crêem. As crianças vêem as pernas moverem-se depois de arrancadas do corpo, e crêem. As crianças crêem!

Às vezes, nós, os adultos, agimos, como crianças.

O ilusionista cumpria uma rotina. Ninguém entra em cena sem se preparar com antecedência. Colocava todos os objetos nos lugares. Arrumava todos os truques. Checava todas as ilusões. Armava o circo, como se costuma dizer. Ele sabia que seu sucesso dependia disso. Ele sabia que seu sucesso dependia da crença das pessoas de que, afinal, aquilo poderia ser verdade. Ele sabia que era necessário transformar toda a platéia em crianças, mesmo que por um segundo. E, para isto, tudo deveria funcionar como um relógio.

Os relógios são objetos fantásticos. Tão simples e tão complexos ao mesmo tempo. Uma série de molas e cilindros colocados de tal maneira que conseguem medir o tempo. O tempo... esse incrível enganador... medido e preso por molas e objetos sem valor. Ou não?

O ilusionista, por outro lado, não se deixava prender a nada. O ilusionista tinha em mente, única e exclusivamente, seu show. E isso era bom... sua dedicação rendia-lhe seu sustento. Mas, o ilusionista também era um homem. E por vezes, desviava-se de seus intentos. Às vezes seu olhar era traído e por um segundo via-se preso a sonhos. Seu olhar desejava. E o objeto do desejo, na maioria das histórias, é de vidro. Lindo. Translúcido. E frágil.

Os objetos de vidro são fantásticos. Ao mesmo tempo em que passam por um batismo de fogo para serem moldados, transformam-se em algo que deve ser cuidado com atenção. Ao menor contato podem se fragmentar. Romper. Deixar de existir. Ou não?

O ilusionista então, preso num desses momentos, cometeu um erro - para o bem da trama e como já era de se esperar. E só se deu conta do erro no momento da apresentação. Seu relógio de vidro estava à sua frente. Não havia como recuar. As crianças da platéia, todas, já haviam percebido que algo não ia bem com o número. O ilusionista havia sido pego. No erro. O ilusionista estava, agora, nu. Translúcido. E frágil.

Na platéia uma criança sente a tensão. A tensão do desastre iminente. Pobre criança, tão frágil diante do inevitável. Pobre ilusionista, tão surpreso diante do inevitável. A tensão inevitável.

O ilusionista, despido de seus truques, deseja que o tempo não pare. Deseja que o relógio não se rompa com o impacto. Que o vidro continue translúcido, nem que seja só para ele. A criança, despida de maldade, deseja o mesmo, embora não tenha consciência disso. A criança só quer ver a mágica. O ilusionista sua. A criança prende a respiração. O relógio é só um relógio.

E então, para a surpresa de todos, a mágica, acontece! Mágica mesmo, não os truques que estamos todos acostumados a ver. A criança aplaude. O ilusionista respira, aliviado e atônito. O público aplaude e crê. Tudo acaba bem.


Pelo menos, era nisto que eu queria acreditar, embora eu mesmo seja de vidro...

16 impropriedades alheias!:

Fellipe Abdalla disse...

Ola blogueiro....seu texto esta bem legal, a relação do ilusionismo, crianças e magia! Seu texto é prático mas complexo! Interessante!

Aproveite e da uma visitada no meu: http://pensamentocoletivo.spaceblog.com.br

Saudações!

Samira disse...

E foram "felizes para sempre"...?
hehehe
Gostei bastante do texto... Só não entendi qual mágica foi essa. Mas você escreve muito bem! Parabéns... =)

Marina disse...

O ilusionista alimenta justamente o sentimento mais ligado a nossa infância. Aquele sentimento puro e sem malicias, como tu disseste.
E, pode ter certeza, que pelo menos uma vez na vida somos frágeis como um objeto de vidro. Aí depende da mágica nos salvar.

Mayna disse...

Acho que a verdadeira mágica acontece quando é vista através dos olhos de uma criança! Muito bom o seu texto!


http://maynabuco.blogspot.com

Fala, Garoto! disse...

Fala, garoto! Tudo bem? Primeira vez que invado seu espaço; estou totalmente extasiado com o conteúdo.
Nesta vida, ilusionista é aquele que consegue ver a sua própria realidade antes de buscar descobrir os segredos da realidade das estrelas. É
viver pela eternidade, mas conseguir receber aqui mesmo os tesouros que as traças não comem. Abs

Anônimo disse...

Muito bom o teu texto.
prendeu minha atenção palavra a palavra, adorei
virei mais vezes te visitar.
parabéns!

Fada

http://fadasafada.blogspot.com/

Esfinge disse...

Acho que os políticos brasileiros muitas vezes fazem se de ilusionistas (principalmente na mágica do dinheiro que some ou multiplica se na conta bancária suíça) e o povo brasileiro comporta se como criança idiota e fácil de agradar (ao invés do doce bolsa esmola e no lugar de ingenuidade ignorância e estupidez para acreditar em tudo)

Passageira do tempo disse...

Parabens seu texto prende palavra, por palavra...Ja esta adicionado aos favoritos, irei sempre lhe fazer uma visita...dpois da uma passadinha no meu é n deixe de comentar...Beijos

Passageira do tempo

http://passageiradotempo.blogspot.com/

Everaldo Ygor disse...

Olá...
Por aqui sempre um prazer aportar... E o ilusionista & o Sr do Tempo, Seres miticos que povoam nosso subconsciente, são capazes de hipnotizar, de fazer viajar no espaço, em tempos interiores, ilusão ou realidade, é como o seu belo conto, vai "crescendo" dentro de cada um, nas porções crianças, nas porçoes mais "duras" dos adultos... Enfim um belo e instigante texto...

Abraços
Everaldo Ygor
http://outrasandancas.blogspot.com/

Raphael disse...

Genial!
Isso tem muito a ver com a política do nosso Brasil.
Eles finjem quem dizem a verdade e nós finjimos que não é com agente, ou que acreditamos...Ou não?

Abraço

Flá Absolut disse...

Que texto!!! Faz agente pensar nos valores da vida, no que é real, e ilusão... gostei muito

vc escreve muito bem

parabénsssssss

HenriqueM disse...

O ilusionista é aquele que consegue enganar e ter sucesso neste engano?



Acho que eu estava na platéia...

Bruna Presmic disse...

Muito interessante... gostei!

Cia. Desmontagem Cênica disse...

Diferente! São poucas pessoas que escrevem assim... que pensam assim... Bem bom!

Tyler Bazz disse...

Essa semana mesmo eu li um texto todo teórico que falava de como o vidro é impessoal.. e agora um "eu sou de vidro" vem e me deixa.. confuso.

o/

Mayara Lucena disse...

Gosteii do seu texto, bem complexo, mais interessante! :)

bjos :*