[Do lat. imp. improprietate.]

... Substantivo feminino ... 1. Qualidade de impróprio ... 2. Inconveniência, oportunidade ... 3. Incoerência, absurdo ... 4. Deslize, lapso; incorreção: Sua linguagem se ressente de muitas impropriedades

quinta-feira, 14 de maio de 2009

A Entrevista

- Hein? Água? Sim, aceito. Gelada, sim... Por favor. Você sabe se demoram muito para vir me buscar? Tô nervoso. Nunca dei entrevista para a televisão. Nunca achei que minha vida fosse interessante o suficiente. (pausa) É você quem vai me maquiar? Não? Hummm... Eu aguardo. (pausa) Você sabe porque me chamaram aqui? Querem que eu fale da gravidez que eu tive? Eu não falo sobre isso. Se for para falar sobre isso eu vou embora agora... (exaltando-se) Eu estou calmo! Não fique dizendo para que eu me acalme. Eu não estou nervosa, digo, nervoso. (pausa) Será que ainda vai demorar para me chamar? A que horas começa o programa mesmo? Nunca dei entrevista para a televisão. Eu vou falar sobre o meu trabalho, né? Como? Sobre a gravidez? Eu já não disse que eu não falo sobre isso? O que é que vocês poderiam querer saber sobre isso? Foi uma gravidez normal!!! Bom... Quase normal. (exaltando-se) Sim, o único fato distinto foi por eu ser um homem... Um homem!!! (gritando) Por favor, pare de falar sobre isso... Há anos que eu não falo sobre esse assunto... Eu vim até aqui para falar sobre o meu trabalho. Ninguém quer saber do meu trabalho? É uma notícia que não vende? Minha vida não é interessante? O povo quer ouvir sobre coisas engraçadas? Coisas... Engraçadas... Minha gravidez é uma coisa engraçada? Pois bem, então eu vou lhes contar uma história engraçada... Que começa com a minha gravidez. Como eu engravidei? Oras, da maneira normal... Eu já fui uma mulher. (com ironia) Você sabe como é que uma mulher engravida, não é? (muda de tom) Eu nasci no corpo errado. Sempre fui um homem no corpo de uma mulher... Mas isso já faz tanto tempo. (chora) Está vendo? É por isso que eu não gosto de falar sobre essas coisas... (com irritação) Ai, por favor... Não faça todas essas caras e bocas que você me irrita. Eu não deveria estar aqui... Me disseram que a entrevista era sobre o meu trabalho... E agora isso? Coloquei o meu melhor terno... (pausa longa) Esse era o terno que eu estava usando no dia em que eu o encontrei morto... Já faz tanto tempo... Lembro de tê-lo pego nos braços e chorado sobre o seu corpo. E tentado reanimá-lo, e... Ele vivia reclamando de que as pessoas o apontavam na rua... Que as pessoas colocavam apelidos nele... - Olha, lá vai o filho do viado! - E riam... - Por onde será que você saiu quando nasceu? - E riam... E riam... E jogavam pedras. Até que um dia uma das pedras o acertou na cabeça. (pausa) Que foi? Você não quer mais ouvir a história? (com ironia) Mas agora que ela está ficando tão interessante... (mais ironicamente) Você não queria uma história engraçada? Imagine como eu achei engraçado quando encontrei o meu filho caído com a cara no chão. Eu estava lavando a roupa em casa e senti que algo estava errado. (seca) Eu era a mãe dele. (chora) E quando eu o encontrei na frente de casa, ele já estava morto. Ninguém teve coragem de gritar por socorro... Eu o peguei nos braços... E ele já estava morto. Morto. (seca) Desculpe, eu não devia ter colocado esse terno hoje. Mas você não tem nada a ver com isso, não é? Você só precisava de uma história engraçada para colocar no seu programa de TV. Hein? Água? Não obrigado... Eu não preciso da sua água.

***Texto escrito para o Núcleo de Dramaturgia do SESI Paraná como exercício que tinha a seguinte indicação: escrita de um monólogo a partir de duas imagens, criando um percurso de transformação entre a primeira e a segunda.

Imagem 01:
Imagem 02:

sábado, 9 de maio de 2009

Uma cena...

A (entrando): ...um idiota, isso sim é o que ele é!

B (acordando): Hein?
A: Um imbecil pintado de verde...
C: Vai começar a cena... Aliás, já começou.
A (cada vez mais exacerbado): Um idiotinha querendo ser mais do que é... Isso é coisa que se diga? Sim, porque... Oras... As pessoas precisam ter limites... Não se pode ir despejando todo o lixo em cima de outra pessoa e achar que é assim mesmo...
B: Como?
C (para B): Não se meta, você é apenas um coadjuvante.
A (espumando): Ai que vontade de ... (faz sons estranhos)
C: Isso é que é contemporaneidade.
B: De quem você está falando?
A (exausto): Daquele idiota japonês... Aquele imbecil chinês... Aquele anormal chileno... Aquela anta colombiana...
C: É um negro!
A: Nem português ele fala.
B (sem entender): Ahhhh...
C: É mudo.
A: Ficou me perseguindo... Estava de marcação comigo... De um lado para o outro... Pra cima e pra baixo...
B: Hummmm...
C: É aleijado.
A: Uma ova!
B: De quem vocês estão falando, afinal de contas?
A: De um filho da puta!
C: De um sujeito que a partir de agora será denominado "ausente". (pausa) Ausente de princípios. (pausa) Ausente de determinação. (pausa) Ausente de desejos e vontades e complicações e existência. (pausa) Um sujeito que não vê outra coisa que não seja o umbigo. (pausa) Na verdade, um sujeito que não vê. (longa pausa) É cego!
B: Vocês estão falando de mim? Eu estava dormindo.
A (gritando): Um filho da puta!
C: Como a maioria de nós.
A (gritando): ...um filho da puta, isso sim é o que ele é!
B (tranquilo): Eu sonhei que havia alguém ausente. Eu sonhei...
C: Um momento lírico... Talvez...
B: ... Sonhei que ele me balançava calmamente em uma rede. E seu rosto era calmo e tranquilo... E ele me dizia palavras doces... E ele me dizia que eu não devia me preocupar com nada... E ele me dizia que eu não era um inútil... E ele era doce... (angustiando-se) Mas ele não tinha rosto... Ele não tinha rosto... Em alguns momentos era somente um borrão, noutros tinha uma cabeça de cavalo... Em outros ainda era como se ele não existisse...
C: É só um pretexto. (longa pausa) Talvez.
A: Não era um sonho... Eu o vi... Ele falou comigo. Tenho certeza. (confuso) Ele me xingou. Era rude. Arrogante. Gritava. Xingava. Eu o vi. Eu acho que o vi. Estava escuro, mas ele me tocou. Isso... Ele me tocou... E disse... (pausa) E disse...
C: É preciso terminar a cena!
A: Não...
B: Tenho sono...
A: Seu imbecil...
C: Como a maioria de nós.
A: Você é como ele... Um idiota... Prepotente...
B: Muito sono... Preciso de silêncio...
C: Já está acabando.
A (enquanto sai, vai aumentando o volume): Um idiotinha querendo ser mais do que é... Isso é coisa que se diga? Sim, porque... Oras... As pessoas precisam ter limites... Não se pode ir despejando todo o lixo em cima de outra pessoa e achar que é assim mesmo...
(longa pausa, silêncio)
C: Acabou.
(B adormece)



* Texto escrito para o Núcleo de Dramaturgia do SESI Paraná como exercício que tinha a seguinte indicação: "Triálogo. Três personagens descrevem e julgam a um quarto personagem (ausente). Concordâncias e discrepâncias."